A CACHAÇA É BRASILEIRA
Registrada mundialmente como o único produto genuinamento "Made in Brazil" a cachaça é sinônimo de alegria de ser brasileiro
Não é de hoje que a cachaça é um dos principais ícones da cultura brasileira, com forte presença na história, na culinária, no folclore, na música e até mesmo na religiosidade e nas crenças do nosso povo.
Além de ser agasalho pra muita gente, a cachaça contribuiu ao longo dos anos para enriquecer a farmacoterapia popular. Misturada com ervas, por exemplo, é recomendada para abrir o apetite e como digestivo. É capaz de curar gripe, picadas de cobra, reumatismos, sífilis, maleita, é relaxante e ao mesmo tempo tira o sono, se essa for a necessidade. Até mesmo para o alcoolismo ela dá jeito: ao bebedor insaciável, nada como uma aguardente misturada com caldo de coruja e areia de cemitério para evitar a continuação dos excessos.
No candomblé, a cachaça é elemento fundamental para o sucesso dos pleitos dos fiéis. E n o catolicismo, está presente num auto do Círio de Natal, chamado "Baile da Aguardente". São Benedito era cantado nas trovas populares como o "santo preto, que bebe cachaça e ronca no peito". E tem gente que jura ter sido a cachaça inventada pelo próprio São Pedro, a pedra sobre a qual a Santa Madre Igreja foi edificada.
Bernardo Guimarães, o autor de Cantos de Solidão, O Seminarista e Escrava Isaura entre outros, imortal da Academia de Letras, tinha uma relação estreita, digamos assim, com a cachaça. Segundo a crônica da época, enquanto era acadêmico de direito na faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo, tinha uma vida boêmia e festiva. Tão notória era sua "sede' que atribui-se a ele a criação do primeiro cachaçoduto de que se tem notícia. Preocupada com tamanho apreço pela bebida, a família o proibiu de sair sozinho de casa. Pra não se privar do precioso líquido, Guimarães mandou ligar ao seu escritório, por um cano de chumbo, um barril que ficava no quintal da casa. Nos fundos do terreno passava uma estrada de tropas, e um tropeiro amigo de Bernardo se encarregava de abastecer o barril sempre que fosse necessário.
Na década de 20, o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, dois dos principais protagonistas do Movimento Modernista brasileiro, viviam em Paris. Um dos freqüentadores assíduos da residência dos dois era o pintor catalão Pablo Picasso, que lá teria conhecido e se apaixonado pela cachaça, graças ao emprenho de Oswald em divulgar os produtos genuinamente nacionais.
A marchinha "Cachaça" fez parte da trilha sonora do filme "O Carnaval da Atlântida", com participação elogiada de Grande Otelo. A música, assim como a bebida, caiu no gosto popular e foi uma das mais cantadas e ouvidas por muitos anos depois do lançamento do filme. E permanece viva no carnaval até hoje. Em 1955, a dupla Zé e Zilda, que também havia gravado "Cachaça", lança outra marchinha carnavalesca, "Ressaca", com o mesmo tema e com igual sucesso.
Ponteando o cancioneiro popular no carnaval e fora dele, com letras e canções de Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Ary Barroso, Custódio Mesquita e Zeca Pagodinho, entre muitos outros, a cachaça arrebatou os foliões em 2001, como enredo da escola vencedora do carnaval carioca, a Imperatriz Leopoldinense. O samba composto por Marquinho Lessa, Guga e Tuninho Professor, levantou a Marquês de Sapucaí com o refrão "Cana-caiana, cana-roxa, cana-fita, cana-prata, amarela, Pernambuco … Quero vê descê o suco, na pancada do ganzá!" O tema mereceu homenagem especial do Othon Palace Hotel, que incluiu no seu cardápio um drink feito de cachaça e batizado oficialmente com o nome da escola de samba.
O ex-presidente Itamar Franco, nacionalista exacerbado, aproveitou seu mandato como governador de Minas Gerais para instituir o dia estadual da cachaça, que é comemorado em 21 de maio. De acordo com a Lei n° 1.949, nessa data, durante as cerimônias oficiais do governo, é recomendado servir aos participantes cachaça e pão-de-queijo, que aliás formam um belo par.
A mais brasileira das bebidas também abriu as portas do Guiness, o livro dos recordes, para José Moisés de Moura, que tem um acervo de extraordinário valor no município de Lagoa do Carro, em Pernambuco. A coleção, que inclui cerca de quatro mil marcas de cachaças e centenas de objetos relacionados ao tema, foi considerada a maior do mundo. Numa fascinante diversidade de visões e de leituras, os rótulos mostram quase que um resumo da nossa cultura, da nossa história, da fauna e da flora, das cidades, dos santos e, enfim, do povo brasileiro.



