Uma cachaça com muita história


No Vale do Paraíba, em São Paulo, o porão de uma casa colonial esconde quarenta mil litros de um tesouro com uma pitada de mistério.

Imagine você que, tendo eu nascido em Assis, interiorzão de São Paulo, filho de pais que se criaram na roça carpindo café, botei na cabeça que queria ser jornalista. E foi assim que, terminado o antigo colegial, peguei minha mochilinha de lona verde, modelo escoteiro, e embarquei no ônibus da Andorinha direto pra São Paulo. Formado em 1980 pela Cásper Líbero, uma das mais tradicionais faculdades de jornalismo do país, estou teimando até hoje no nobre ofício de correr atrás da notícia.

Pedindo licença pra encurtar o causo, em favor do propósito de não encher o saco do amigo leitor, pulo direto pra 1988, quando tive o privilégio de ser contratado como repórter do Globo Rural, da TV Globo, que eu considero o melhor programa da televisão brasileira. Foram quase onze anos cortando o país de cima pra baixo e de baixo pra cima, pra mostrar um pouco da fantástica riqueza econômica e cultural do Brasil rural.

A história que eu estou querendo contar aconteceu mais ou menos no começo dos anos noventa do século passado. O caso dado era que a antiga Cesp, que naquela época ainda era do governo e se chamava Centrais Elétricas de São Paulo, tinha concluído de pouco a construção de uma grande barragem no Vale do Paraíba, região considerada por muitos historiadores como berço da cultura caipira do estado de São Paulo. A água da represa engoliu centenas de hectares de vales, transformando em ilhas o que antes era o topo de não sei quantas montanhas.

Pra minimizar pelo menos uma parte do prejuízo ambiental causado pela obra, a Cesp montou em Paraibuna uma estação ecológica, onde técnicos e matutos com profundo conhecimento da natureza foram encarregados de produzir mudas de árvores nativas, pra reflorestar a terra mexida, e de criar em cativeiro aves e animais da fauna local, pra repovoar essas novas florestas. A história dessa luta pra recriar um pedacinho do que fora destruído rendeu uma bela reportagem para o programa (aqui, peço ao amigo leitor o favor de não pensar que me falta a virtude da modéstia; no caso, o mérito foi todo do pessoal da Cesp, que realmente fez um trabalho muito bonito).

Logo no primeiro dia de gravações, chega a hora do almoço. A gente queria uma comidinha caseira, e a equipe da Cesp encarregada de nos acompanhar conhecia um restaurante que atendia plenamente ao nosso pleito. Entramos, sentamos, veio o garçom pra anotar o pedido. Sem escamotear o meu gosto pela marvada, pedi logo a abrideira pra molhar a goela empoeirada. Mas como de costume adverti logo o homem: que seja da boa, senão não precisa, muito obrigado.

O motorista da Cesp, de quem infelizmente não me lembro o nome pra dar o devido crédito, assuntou com interesse o meu jeito e a minha cerimônia diante do copo apresentado. A cachaça até que era bem razoável, impressão essa que tornei pública na mesa. De bate-pronto, o motorista emendou, num tom meio de desafio: “Pois eu tenho em casa uma muito melhor, e com mais de trinta anos de idade”. Se a idéia dele era me provocar, provocou: na mesma hora marcamos um churrasco na casa dele, pro dia seguinte, pra conhecer a tal cachaça.

Na hora combinada, a carne já no braseiro, me vem ele com a bebida prometida. Cheirei, cherei de novo, agitei o copo pra conferir o rosário, chequei a cor e a transparência e dei o primeiro gole. E me rendi imediatamente: era coisa muito séria a cachaça do homem. Depois disso, o rumo da conversa o amigo leitor já imagina: me dá aí o mapa dessa mina que eu quero levar pelo menos um meio litro pra casa. Não foi preciso nenhuma negociação especial pra que ele concordasse em nos levar até a fonte. Havia, porém, algumas condições indispensáveis, porque a história não era assim tão simples.

O caso contado era o seguinte: a cachaça em questão vinha de uma fazenda colonial, que nos antigamente pertencia a um alemão amante da aguardente de cana brasileira. No começo da década de sessenta esse alemão, tangido pela saudade da terra natal, resolveu tomar o caminho de volta e vendeu a propriedade para um conterrâneo seu recém-chegado ao Brasil. O negócio foi feito de porteira fechada, e incluiu a última alambicada feita na fazenda, que rendeu mais ou menos quarenta mil litros.

Ocorre que esse segundo alemão, o comprador da fazenda, não gostava de cachaça. Tomando posse das terras e das instalações, ele desmontou o alambique e parou a produção. E aqueles quarenta mil litros, engarrafados pelo primeiro dono, tiveram como destino o esquecimento, abandonados no porão da antiga casa grande. A explicação para o fato é a parte misteriosa (ou fantasiosa, sei lá) da história.

Segundo a lenda contada em verso e em prosa na região, e repetida pelo nosso amigo motorista, o novo proprietário da fazenda seria, na verdade, um fugitivo nazista que, desde o final da Segunda Grande Guerra, ainda tinha contas a ajustar com a justiça internacional. Por conta disso, o homem não recebia visitas nem por decreto, e muito menos estava interessado em mostrar, dar ou vender a cachaça armazenada no seu porão. Mas o bravo condutor da Cesp, pra quem a essa altura nós já éramos de casa, tinha um canal aberto pra chegar ao tesouro e garantir a compra de pelo menos algumas garrafas.

É que ele era um dos pouquíssimos amigos do administrador, digamos assim, da propriedade, que já lhe havia vendido um tanto da aguardente preciosa. Combinamos, então, a ida até a cidadela do suposto nazista. As instruções para a incursão foram dadas em grave tom de advertência: nada de câmeras de televisão, nada de máquinas fotográficas, nada de perguntas, sob pena de sermos expulsos do lugar antes de chegarmos até o porão. Todo mundo de acordo com as regras, partimos.

Logo na chegada, numa torre que compunha o núcleo principal da casa-sede, avistei um sujeito loiro, de porte avantajado, com certeza passado dos sessenta anos, que se limitou a nos fazer um aceno rápido, sumindo em seguida. Era ele, o tal nazista, que já estava avisado da nossa ida. A casa grande era de fato um verdadeiro monumento colonial, construída toda em pedra, assentadas uma a uma pela força de escravos. Entre outros detalhes, me chamou a atenção o sistema de abastecimento de água, feito por meio de canaletas também de pedra, que serpenteavam caprichosamente desde as montanhas onde se escondiam as fontes cuidadosamente preservadas.

Num pátio interno do casarão encontramos o administrador, que a despeito da idade avançada capinava a horta com disposição de menino. O homem já devia estar perto dos noventa anos. Foi uma conversa difícil: além de estar praticamente surdo, ele era suíço, e nunca conseguiu falar direito o português. Veio para o Brasil ainda jovem, acompanhando um lote de vacas de raça que o primeiro alemão havia importado da Suíça para refinar o sangue do rebanho leiteiro. Tomado por súbita e incontrolável paixão pelo nosso país, pediu emprego na fazenda e nunca mais voltou para a sua terra natal.

Feitos os cumprimentos de praxe na medida do entendimento possível, o administrador nos guiou por um pequeno labirinto, até chegarmos ao porão da casa grande. A pesada porta colonial rangeu ao ser aberta, revelando um ambiente dominado por uma densa bruma. Nas paredes e nos cantos havia muitas ferramentas agrícolas, certamente centenárias, que eu nunca havia visto antes apesar de vários anos de militância no jornalismo agropecuário.

E o principal: elas estavam lá, espalhadas no chão, algumas em caixas, enchendo os meus olhos: centenas de garrafas de cachaça, cobertas pela poeira dos anos. Nas rolhas, havia uma espécie de mofo branco, que só mesmo o tempo poderia ter feito. Comprei o que dava pra carregar naquela hora, acho que foram umas quinze garrafas. Os companheiros da equipe levaram outras tantas. Pagamos, agradecemos, fizemos a despedida e pegamos a estrada rumo a São Paulo.

Até hoje não sei se o alemão era mesmo nazista ou não. Acho que não acreditei muito na história. Mas o fato é que ainda tenho em casa, hoje incorporadas à minha coleção, três garrafas da cachaça que, a esta altura, deve estar chegando aos quarenta anos. As outras foram dadas de presente a amigos importantes. Uma delas foi aberta há muito tempo em Assis, durante uma festa no sítio do meu tio Jota, cachaçófilo emérito e anfitrião à altura da solenidade do momento. Uma bebida fina, provavelmente suavizada pelo tempo, que agradou plenamente a mim e aos companheiros que tiveram o privilégio de provar o tesouro da fazenda do alemão de Paraibuna.

Por Sidnei Maschio