Quem quiser pode procurar, mas não vai achar neste chão mineiro, nem em todo o sertão brasileiro, nem no mundo inteiro, caboclo que seja mais caprichoso e mais carinhoso com uma garrafa de cachaça do que esse vivente morador de Alfenas, nas Minas Gerais, chamado Messias Soares Cavalcante. Não é conversa de contador de vantagem, nem é bestagem de gente que, sendo marinheiro de primeira viagem, se encanta com conversa fiada ouvida nas beiras de estrada. Tá registrado e comprovado, com documento carimbado e assinado por uma das instituições mais rigorosas do mundo, que da Ásia pra Eurásia, nas Europas e nas Américas, não existe em nenhum lugar do planeta coleção de cachaças que seja maior do que a dele. Arredondando a conta, são nada menos que 12.800 mil garrafas, sem repetir nenhuma. Feita a lista, juntados os documentos e os retratos tirados, mais o depoimentos das testemunhas, tudo conferido e confirmado, o Messias e sua coleção acabam de entrar para a edição mundial do Guinness Book, o livro dos recordes.

Antes de dar seguimento no caso a ser contado, é forçoso lembrar que uma coleção, seja ela do que for, de canetas, de moedas, de selos ou obras de arte, ou ainda de cachaças, uma coleção é um pedaço da história, um retrato de uma determinada quadra da experiência humana na Terra. Sendo isso, ela é uma coisa viva, respira e se movimenta, se nutrindo e crescendo sempre, não por si só, mas pela mão e pelo trabalho de um mentor, um idealizador que a alimenta e a sustenta. Um pai, por assim dizer.

O Messias, que é o pai dessa coleção que entrou para o Guinness, foi nascido em Andradina, estado de São Paulo, e aos 62 anos de idade já rodou meio mundo. Saiu da cidade natal quase no colo da mãe, com três anos, no rumo da capital paulista, onde fez a vida e se formou biólogo, com bacharelado e licenciatura pela USP, a Universidade de São Paulo. Como se isso fosse pouco, ainda teve peito pra atravessar o oceano e fazer mestrado e doutorado na Inglaterra. Está arranchado em Alfenas há 15 anos, onde ganha o pão e a cachaça de cada dia trabalhando como administrador da Fazenda Espigão, que margeia a represa de Furnas por mais ou menos vinte quilômetros. Na definição dele, o lugar é “uma mistura do Paraíso com o Jardim do Éden, onde se produz café de alta qualidade, isso quando São Pedro ajuda e o governo não atrapalha”.

Antes de ser abençoado com um emprego como este que ele tem hoje, o Messias trabalhou no IPT, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, na capital de São Paulo, e foi nesse serviço que ele teve a preciosa oportunidade de viajar pelo Brasil inteiro e também por vários países desse mundo velho sem porteira. “Aí, sempre que sobrava um tempinho, eu ia a locais que não faziam parte do itinerário turístico ou dos visitantes comuns, para ter uma idéia melhor sobre o lugar e os costumes do seu povo”, conta ele. Foi nessa época que surgiu o interesse pela cachaça: “Nas viagens pelo Brasil eu encontrava os mais variados tipos de rótulos e embalagens, alguns muito pitorescos, e passei a levar pra casa os que me chamavam mais a atenção”. Pois foi assim desse jeito, sem planejamento nem intenção, que num certo dia ele descobriu que tinha uma coleção. E o interessante é que, naquele tempo, o hoje recordista mundial não bebia nada, uma gota que fosse, de álcool. Êta vida engraçada essa nossa, né...

Mas o amadurecimento vem com o passar do tempo, e logo ele foi convertido aos prazeres etílicos, sendo que o seu advento ao mundo dos destilados aconteceu com a descoberta do uísque. Afortunadamente, essa fase durou só até o dia em que ele foi apresentado a uma cachaça de qualidade, e aí a rendição à marvada foi natural e imediata. “Bebo com os amigos todos os sábados (eu só nos sábados e os amigos também nos sábados). Minha preferência é pela bebida envelhecida em carvalho, e pra não facilitar com a tentação de beber a coleção mantenho sempre dois tonéis de dez litros e mais um de vinte litros com cachaça de oito anos da Adega de Minas, do município mineiro de Serrania. Enquanto bebo também tomo muita água, e por conta disso não sei o que é ressaca”, ensina ele.

Talvez por isso, Messias não enfrenta em casa nenhuma resistência ao seu gosto e à sua dedicação à cachaça. Casado pela terceira vez, ele tem um filho de 23 anos e uma filha de 19, ambos do segundo casamento. “A primeira e a segunda esposas sempre acharam que esse negócio era uma bobeira. Já a terceira acha que é uma grande bobeira. Mas eu sei, por informação de parentes e amigos comuns, que todas elogiam a coleção, ainda mais agora que entrei para o Guinness. A atual patroa é a primeira a levar as pessoas que nos visitam para ver a coleção!”


Sagatiba Preciosa, arrematada num leilão internacional que atraiu interessados do mundo inteiro.


As pedras mais preciosas do tesouro

Se o começo de tudo foi sem maiores pretensões, o futuro do tesouro amealhado por este paulista amineirado está traçado e bem planejado. Sabedor da importância do acervo que juntou, Messias prioriza na sua avaliação o lado documental da coleção, deixando o valor econômico dela em segundo plano: “Acredito que as informações contidas nos rótulos espelham muito da arte, das crenças, da tradição e da criatividade do povo brasileiro. Não tenho dúvidas de que isso representa um grande patrimônio cultural do Brasil. Se a armazenagem for bem feita, a cachaça pode ser conservada por centenas de anos, e junto com essas garrafas estará preservada uma parte fundamental da nossa história”, diz ele.

Num conjunto de obras de arte e de diamantes raros como a coleção recordista mundial não há peças desimportantes, mas algumas têm um brilho mais intenso. Na lista das maiores preciosidades da galeria, o Messias põem em primeiro lugar o exemplar da Sagatiba Preciosa, que ele arrematou num leilão internacional promovido pela tradicionalíssima loja Christie’s de Amsterdam, na Holanda, em novembro de 2006. Foi a primeira vez que uma cachaça foi leiloada por aquela instituição, num evento que mereceu ampla cobertura por parte da imprensa nacional, com repercussão também fora do Brasil. As duas garrafas levadas ao pregão, postas em embalagem de altíssimo luxo, fazem parte de um lote encontrado por acaso pelos donos da marca no interior de São Paulo, que estava armazenado e esquecido há quase trinta anos, repousando em tonéis de carvalho vindos da França.

O valor do lance vencedor é segredo guardado a sete chaves, e só o que o Messias revela é que, por conta da enorme burocracia que envolveu o negócio, a mercadoria foi entregue exatamente um ano depois da venda, por um preço três vezes maior do que o definido na batida do martelo do leiloeiro, por conta de taxas e mais taxas que foram sendo dependuradas no valor inicial. “Com certeza teria saído mais em conta se eu tivesse ido pessoalmente participar do leilão na Europa e voltasse para o Brasil com as duas garrafas debaixo do braço”, diverte-se ele.


Cachaça Pelé, alvo da ira do futuro rei do futebol, achada quase esquecida num galpão do interior mineiro e comprada a preço de pinga.


Olé, Pelé!

Outra peça de grande valor histórico e também econômico é a cachaça Pelé, que ficou famosa por ter despertado a ira do então futuro rei do futebol nos primórdios de sua gloriosa carreira. A marca foi lançada nos anos sessenta do século passado por um fabricante paulista, sem conhecimento nem autorização do atleta. Profundamente incomodado por ter sua imagem usada indevidamente, e ainda mais associada ao consumo de álcool, Pelé tentou sem sucesso a sua retirada do mercado. Sem outra alternativa, diz a lenda que ele comprou todo o estoque à venda na praça e mandou destruir tudo. Escaparam algumas poucas garrafas, que por conta do acontecido viraram raridade cobiçada e altamente valorizada por colecionadores do Brasil e do mundo inteiro.

A história de como a garrafa da Pelé foi parar na coleção do Messias é das boas: “Numa das muitas viagens que fiz com meu concunhado Paulo, ele me contou que quando era criança, em Pocinhos do Rio Verde, aqui nas Minas Gerais, costumava brincar com dois amigos dentro do armazém de secos e molhados do pai dos parceiros. Ele se lembrava de que nas paredes havia prateleiras cheias de garrafas, muitas bastante empoeiradas”, conta o colecionador. Claro que, quase intimado pelo Messias, na volta da viagem o Paulo procurou os amigos, que então já eram adultos, casados e com filhos, e ficou sabendo que o pai deles estava vendendo a coleção de mais de 1.300 garrafas, e a Pelé junto. “Nessa hora, já fazia 20 anos que o velho comerciante tinha parado de colecionar, o que significa que a garrafa mais nova tinha pelo menos 20 anos de idade. Comprei sem discutir nem regatear.”

Outra expedição quase arqueológica aconteceu também na companhia do concunhado e companheiro Paulo, quando os dois andavam na localidade de Cascatinha, no tradicional município mineiro de Poços de Caldas, e ficaram sabendo que o dono de um bar do bairro havia morrido e a filha do vendeiro estava se desfazendo das cachaças que o pai tinha deixado. “Comprei várias, mas de jeito nenhum ela aceitou me vender a Bodocó, muito antiga, fabricada há não sei quantos anos em Betim. MG. Por mais que eu aumentasse a oferta, não houve acordo porque, dizia ela, o pai tinha um carinho especial por aquela cachaça”, conta ele.

Não se passaram mais do que uns meses e os dois garimpeiros estavam juntos num mercadinho de Coronel Murta, localidade lindeira de Salinas, berço de marcas famosas que reivindica o título de capital mundial da cachaça. Depois de gastar R$ 5,00 na compra de duas marcas locais, e só pra não perder o costume, perguntaram ao dono do estabelecimento se, além daquelas, ele não tinha mais alguma coisa interessante. Tinha, sim, mas eram “umas coisas velhas” guardadas num depósito onde ninguém entrava havia mais de dez anos. Adivinhando o que estava pra ser descoberto, o Messias tratou logo de fechar o preço ali mesmo, antes de pegar o rumo do tal depósito: “O combinado foi R$ 8,00 por garrafa que eu não tivesse, e feito o trato fomos pra rua de baixo. Era uma porta metálica, daquelas de erguer, e foi preciso pé-de-cabra, alavanca e um tanto de prestativos amigos ocasionais pra conseguir abrir” conta ele. A luz da rua revelou pilhas de caixas empoeiradas e cobertas por teias de aranha, que consumiram algumas horas de inventário pra definir o lote que seria arrematado. Foram dezenas de garrafas e, entre elas, a tal da Bororó que a herdeira do vendeiro de Cascatinha não quis vender. “Em casos como este, escolho um exemplar de cada marca, mas da Bororó comprei as duas garrafas que o homem tinha”, conta ele arrematando o caso.


Bororó, que era inegociável na primeira chance, veio em dose dupla na segunda.


E pra embaralhar as idéias de quem sempre acreditou que a aguardente de cana é uma exclusividade brasileira, a coleção do Messias tem ainda uma seção internacional. São exemplares vindos de Argentina, Áustria, Cabo Verde, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Grécia, Ilha da Madeira, México, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela, todas elas nascidas do mesmo processo consagrado de fabricação. Como foi que eles aprenderam a fazer, aí já é assunto pra doutor especialista pesquisar e procurar uma explicação, né.

Precaução e canja de galinha...

Por ser amante da arte, da beleza e da importância histórica das suas preciosidades, o recordista de Alfenas liga mais pra isso do que pro valor econômico que elas têm. Mas ele sabe muito bem que, se fosse pra passar o seu acervo nos cobres, o caso aqui não serviria pra justificar a expressão popular e trocar tudo por “dinheiro de pinga”: “Já me ofereceram muito, mas muito dinheiro mesmo, pela coleção, mas a idéia de vendê-la está totalmente fora de cogitação. Me sinto plenamente gratificado quando percebo que as pessoas se admiram de vê-la, ao vivo ou mesmo pela internet. Sempre recebo e-mails de gente cujo pai, avô ou bisavô fabricava alguma cachaça que as pessoas nunca mais viram e agora reencontraram no meu site (www.pingaiada.alfenas.net) quarenta, cinqüenta anos depois da última recordação. A maioria não tem nenhum exemplar e, como já aconteceu muitas vezes, ficam tão emocionadas ao ponto até de chorar. Isso pra mim não tem preço”, completa.

Ainda assim, o Messias é sabedor de que, além de emoções, essas peças mais preciosas podem despertar também a cobiça de outro tipo de gente, como até já aconteceu com outras coleções que foram alvo de ladrões. Segundo ele, uma garrafa da Pelé, por exemplo, vale na praça cerca de US$ 10 mil, e aí não dá pra facilitar: “Por precaução, essas garrafas mais valiosas estão muito bem guardadas, já há alguns anos, numa outra cidade, debaixo de total segurança”.

Beber e gastar com moderação

Mesmo tendo amealhado tantas preciosidades, o recordista mundial enfatiza que coleciona “com moderação. Apenas parte dos meus rendimentos são direcionados à compra de cachaças. Acho que exagerei um pouco só numa única ocasião, quando troquei um jipe Ford-Willis original, de 1959, por umas 700 garrafas do hoje meu amigo José Roberto, que mora em Alphaville, na Grande São Paulo, e mantinha sua coleção num maravilhoso sítio no município paulista de Itatiba”. Mas não dá pra negar que é um prazer dispendioso, não só pela compra das garrafas, mas também pelas despesas de viagem, correio, transportadora e local para armazenar as peças. Quando a brincadeira começou, dava pra guardar tudo numa prateleira na despensa de casa. Mas a quantidade foi aumentando e foi preciso construir um anexo de 60 metros quadrados, que não demorou pra ficar pequeno e teve de ser ampliado pra 130 metros quadrados, e de novo o espaço já está apertado, de forma que não se sabe onde isso vai parar.

A respeito do caminho das pedras pra se achar cachaças raras hoje, o Messias avisa, sem intenção de desanimar ninguém, que está cada vez mais difícil. “Com a extraordinária modernização das comunicações, especialmente por conta da Internet, isso está virando uma atividade de profissional, e já tem até ‘marchand’ especializado no assunto intermediando a venda de cachaças antigas. Eu mesmo utilizo os serviços do Rubens Didone Neto, de Itu, estado de São Paulo, que me arrumou verdadeiras preciosidades. Além disso, quase todo dia recebo ofertas de gente querendo vender coleções, mas no meu caso é difícil encontrar alguma com mais de um por cento de peças que eu ainda não tenha”, conta ele, quase em tom de lamentação. Outra dificuldade é que quem vende pede sempre um valor absurdo pelo lote e só quer fazer negócio com a coleção completa. “Aí fica complicado comprar uma coleção de, digamos, 600 garrafas das quais eu só não tenho dez ou vinte. Assim mesmo, já tenho umas 400 marcas repetidas, que uso para troca com outros colecionadores.”

Colecionar é conservar a História

Independentemente do valor isolado de cada uma, todas as peças da coleção são tratadas como documentos históricos, e nessa condição as garrafas do acervo demandam um cuidado especial pra que possam preservar as informações que elas guardam e revelam a respeito do seu tempo e do contexto social, cultural e econômico no qual foram geradas. O patrimônio de extraordinário valor reunido pelo colecionador de Alfenas é mantido em local sem janelas, para evitar a deterioração dos rótulos pela luz solar. Além disso, estão todas guardadas em sacos plásticos. “Por um período embalei em filme de PVC, mas percebi que este material pode danificar a tinta utilizada no rótulo, dependendo da sua composição”, explica o Messias para desaconselhar essa solução.

Outra idéia que ele descarta é a de que, pra conservar “as marcas do tempo”, as cachaças antigas não devem ser limpas: “Isso é muito bom para que bolores, bactérias e traças façam a festa. A primeira coisa que faço quando compro uma coleção é uma limpeza rigorosa. Tenho várias garrafas com rótulos danificados, onde não se pode mais ler o que neles está escrito, por conta da falta de cuidado do dono anterior, o que é um grave prejuízo para o valor documental de cada peça.”

Recorde serve é pra ser quebrado

É claro que o reconhecimento mundial que a inclusão no Guiness Book conferiu à sua coleção é motivo de grande orgulho para o Messias, mas apesar da projeção internacional obtida ele não tem grande apego a essa condição de ser o maior do mundo. Do alto das suas 12.800 garrafas, ele acha que mais importante do que o título em si é a valorização e o resgate da cachaça como legítima representante da mais pura cultura brasileira. No inventário do livro dos recordes, entre 1995 e 1998 a maior coleção de cachaças do mundo era a de Orcolino Custódio de Almeida, também de Minas Gerais, que no entanto foi desbancado, em 1999, por José Moisés de Moura, de Pernambuco. “Como a quantidade de garrafas da minha coleção era bem maior do que a dele, decidi entrar no jogo pra agitar o debate e enriquecer a conversa, e consegui trazer o recorde de volta para Minas Gerais. Vamos ver por quanto tempo ele ficará aqui, mas o mais instigante nessa história é que, a partir desse registro, outras coleções maiores do que a minha poderão ser reveladas para o Brasil e para o mundo. E se isso acontecer, todos nós que somos amantes da legítima cachaça e da verdadeira cultura brasileira sairemos ganhando” completa o atual recordista mundial.

por Sidnei Maschio