Nascida Eliana Bernardete Moreira Chaves, ela foi criada como Lili, na vida boa de Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia. Cresceu na pousada da avó, no meio do burburinho e do movimento dos hóspedes, a maioria romeiros em viagem para pagamento de promessa. Era gente boa, de muita fé e de coração grande. No meio desse povo, Lili desenvolveu desde cedo uma enorme capacidade de cativar pessoas e de fazer amigos.

Filha de professora, quando se tornou menina moça quis ser professora também. Fez o curso de preparação ao magistério, e ensinou o be-a-bá para os meninos e meninas do Colégio São Vicente de Paula, um dos principais da cidade. Em 1988, já mulher formada, recebeu uma incumbência muito especial: representar a família em Salvador, na festa de comemoração dos dez anos de sacerdócio do padre Antonio, que havia sido aluno de sua mãe em Bom Jesus. Fez a mala e se abalou para a capital baiana.

Na casa paroquial, a festa rolando, Lili percebeu que um rapaz loiro e alto, que definitivamente não tinha cara de baiano, “não tirava os oi azul de cima d'eu”. No final da festa, o padre se encarregou de apresentar à moça o tal sujeito: Richard Arp, visitante ilustre vindo da Holanda. Três meses depois desse dia, o mesmo padre Antonio cumpriu os rituais sagrados e, no final, declarou Lili e Richard marido e mulher. Benzidas as alianças, autorizado o beijo e sacramentada a união pela lei de Deus e pela dos homens, Eliana foi embora pra terra do marido.

No novo país, continuou sendo como sempre foi: não sossegou o facho um só minuto. Depois de aprender holandês, fez cursos de importação e exportação, gerência de negócios, marketing, trabalhou como secretária bilíngüe, fez tradução de filmes e documentários, assessorou empresários holandeses em visita de negócios ao Brasil. E tudo sem prejuízo da vida familiar: depois que nasceu o primeiro filho, Rutger, hoje com onze anos, o casal gostou da experiência e adotou um menino holandês, Cásper, que está agora com doze anos.

Moldada na brasilidade da mãe, a família virou quase um sinônimo de festa constante e de amizade. Nos dias frios do inverno holandês (e põe frio nisso), Lili e Richard recebem os amigos (brasileiros e nativos) para um bom queijo e vinho. No verão, a turma curte, todo mundo junto, a cidade, os seus parques e principalmente o quintal da casa dos Arp, que vira um pedacinho do Brasil: é feijoada, rabada, churrasco, moqueca ... e tudo regado a caipirinha.

Aqui, é bom que a gente abra um parêntesis pra contar que, quando se mudou para a Holanda, Eliana levou na bagagem uma antiga relação com a cachaça: “Na minha casa lá em Bom Jesus, era de lei tomar uma ‘branquinha' pra abrir o apetite. E uma das minhas lembranças mais antigas é de um velho tio, o nhô Lau , chegando na porta e gritando: ‘Tem uma batânia aí, gente?' Prontamente, meu pai recebia a honrosa visita abrindo com satisfação o armário, onde havia cachaça de tudo quanto era marca”, conta ela.

Fechando o parêntesis, a agitação da casa e o aconchego do lar não afastaram a baiana do Cotton Club, um bruin café, como chamam os holandeses, que há 65 anos brinda os seus freqüentadores com o melhor jazz de Amsterdã. Praticamente todos os sábados Lili e Richard batem cartão no estabelecimento. E foi lá que a caipirinha começou a mudar a história da baiana de Bom Jesus da Lapa que se viu, de repente, do outro lado do mundo. Num final de semana que prometia ser especial, Marion, a dona do Cotton, ligou pra casa dos Arp pra convidar a família para uma festa surpresa. “Cheguei curiosíssima pra saber o que era”, conta Lili.

Na parede, um quadro desvendava o mistério: “Surprise van de dag - rum brasileiro cacaça” (surpresa do dia – rum brasileiro cacaça ). “Achando-se quase em casa, pedi uma pra confirmar”, conta ela. “Acho que nunca tomei uma gororoba tão ruim em toda a minha vida. Foi nessa hora que resolvi pôr as coisas no lugar certo: subi numa cadeira, peguei a esponja e apaguei tudo. E reescrevi: ‘Surpresa do dia: caipirinha, coquetel feito à base de cachaça, destilado de cana-de-açúcar genuinamente brasileiro'.” Atrás do balcão, a dona do lugar, com uma garrafa de cachaça na mão, tentava justificar a série de erros: “Ganhei uma caixa deste rum e uma receita de capi não sei o resto do nome ...” Lili rebateu no ato, sem deixar que a amiga concluísse a frase: “... caipirinha. Quer que eu prepare?” Foi a conta. A baiana pulou pro lado dentro do balcão e, exigida pela clientela, teve de passar o resto da noite fazendo caipirinha.

A história correu Amsterdã e daquele dia pra frente Lili não teve mais parada. Merlien, uma outra amiga, dona do bar vizinho, o Bermuda Café, embarcou no sucesso do drink brasileiro e pediu que ela organizasse festas brasileiras regadas a caipirinha. E foi, de novo, um sucesso retumbante. Com a faca e o limão na mão, Eliana percebeu que tinha um diamante a ser explorado, e criou o Caipirinha Club, transformando o drink brasileiro num negócio pensado e gerido profissionalmente.

O primeiro passo foi entrar em contato com exportadores pra assegurar o fornecimento da matéria-prima. Depois, traçou um bem-elaborado plano de negócios, que em seguida foi apresentado oficialmente a uma instituição de apoio a imigrantes estrangeiros com potencial para se integrarem de forma produtiva à economia local. O caminho das pedras traçado pela brasileira foi aprovado. Em agosto de 2005, Lili completará dois anos de estudos, cursos e treinamentos sobre como gerir um negócio, tudo pago pelo governo local.  Mas desde o último mês de abril, o Caipirinha Club já desfruta o status de micro empresa formalmente constituída, de acordo com as leis holandesas.

Na definição de sua fundadora, o objetivo do clube vai muito além da divulgação da cachaça e da caipirinha na terra de Van Gogh. “Eu quero mostrar ao povo holandês um pouco do Brasil, a nossa música, a alegria de estar juntos, numa roda de samba, saboreando um produto até agora desconhecido para eles, mas que sempre fez parte de nossa cultura. Recentemente, numa entrevista para uma TV local, a apresentadora me pediu que explicasse o que é que eu estava preparando, de onde vinha este produto e de que é que ele é feito. Eu comecei convidando os telespectadores a conhecerem a história do Brasil a partir do século XVI, e terminei dizendo que, ao tomar uma caipirinha você tem no seu copo cinco séculos de cultura.” E a baiana arretada e atrevida não fica só nisso: “Quero também mudar a opinião de muitos estrangeiros sobre o Brasil e sobre a mulher brasileira. Como disse Rita Lee: ‘Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda, meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem …”

Em seu primeiro ano de existência, com o apoio de patrocinadores de peso no mercado local, o clube participou com destaque de eventos e shows com músicos brasileiros de renome internacional, como Bebel Gilberto, Elza Soares, Djavan e outros. Além disso, também participa de eventos filantrópicos, onde o dinheiro arrecadado é doado a instituições brasileiras de caridade e de ajuda a menores carentes. Mas, para Lili, a história está só começando: “Estou muito feliz com o que faço, minha família e meus amigos estão sempre junto comigo, me apoiando e me ajudando a seguir em frente. Graças à caipirinha, eu descobri que, apesar de todas as dificuldades da vida, é perfeitamente possível conquistar espaço e concretizar sonhos”, conclui Lili.

Por Sidnei Maschio