O livro foi uma ótima surpresa, e rapidamente virou leitura obrigatória pra todo mundo que gosta da “marvada”, pela correção das informações e pela riqueza de detalhes em todos os aspectos relacionados à produção da legítima aguardente de cana. “Cachaça, um amor brasileiro” é obra indispensável na escassa bibliografia da mais genuína bebida nacional, e por causa disso o www.cachacas.com não se conformou com a total falta de informações dos editores sobre a autora de tão belo trabalho e foi procurar a moça pra dizer aos seus leitores-internautas quem ela é e quais foram os motivos que a levaram a escrever sobre o tema. Além da entrevista que você degusta a seguir, o nosso contato com a escritora/pesquisadora também rendeu uma noite de autógrafos no estande que a gente armou na Brasil Cachaça 2006.

Livro

Alessandra Garcia Trindade
é formada em Administração de Empresas, mas direcionou sua carreira para a área de marketing, e hoje ganha a vida como consultora de marketing cultural. Mas o gosto pela cultura da cachaça vem de muito antes da sua formação acadêmica. Mineira da gema, nascida e criada em Campo Belo, ela conta uma de suas lembranças mais marcantes da infância interiorana: “Diariamente, quando o almoço estava sendo servido, meu avô, fazendeiro aposentado e amante da tradição regional, se dirigia ao móvel onde guardava sua cachaça e servia-se de uma dose, que seria degustada durante a refeição”.

Como era de costume na época, principalmente no sertão de Minas, a bebida era comprada diretamente do produtor. E muitas vezes a própria Alessandra era encarregada pelo avô de ir até o alambique pra reabastecer o estoque da casa. Mesmo sem ter a exata dimensão do significado da cachaça no dia-a-dia e na cultura da região, a menina esperta e observadora não demorou a compreender que naquela rotina de produzir, comprar e degustar havia muitos outros significados além do comércio e do consumo de um produto da terra.

O desejo de resgatar e documentar essa parte importantíssima da sua história pessoal surgiu depois que Alessandra já estava formada e estabelecida profissionalmente em São Paulo, a grande metrópole cultural, social e econômica do país. “Como eu sempre tive este contato muito próximo com a cachaça desde criança, há alguns anos comecei a pesquisar o assunto. E a cada informação nova que descobria, mais apaixonada em ficava pelo tema. Ao mesmo tempo, eu percebia que as informações estavam soltas, que havia pouca bibliografia sobre um assunto tão importante para a própria história do Brasil. Era um verdadeiro trabalho de garimpagem, uma coisinha aqui, outra ali, nada ordenado e tudo muito esparso, perdido num universo imenso que é a cultura brasileira”, conta ela.


 
Outra coisa importante que Alessandra constatou foi que as pessoas que apreciavam a bebida conheciam muito pouco sobre ela. Aí, juntando uma coisa com a outra, surgiu daí a idéia de escrever o livro. Da decisão para a ação o caminho foi curto. O primeiro passo foi aprofundar as informações já conhecidas e, principalmente, comprová-las: “Havia muita coisa sobre as quais eu não tinha certeza. Um exemplo é a data da chegada da cana ao Brasil: alguns diziam que era 1532, outros, 1502, e no meio de uns e de outros, o que sobrava era a dúvida. Para resolver esta e outras questões, contratei uma equipe de profissionais com experiência neste tipo de pesquisa”.

O mesmo zelo dedicado à pesquisa histórica foi dispensado também aos outros tópicos do livro. Em relação à linguagem, Alessandra optou por um texto despojado e didático, que pudesse ser compreendido por todos os tipos de público. E como apoio luxuoso pra facilitar o entendimento, chamou para o projeto dois fotógrafos que, além de especialistas em gastronomia, já tinham experiência em fotografar cachaças. Como resultado, a iconografia da obra ficou impecável. No capítulo dedicado à produção da cachaça, a autora teve o apoio de profissionais de destaque nas áreas de pesquisa e envelhecimento da cachaça.

Pra arrematar o trabalho, Alessandra reservou a parte que é literalmente a mais saborosa do livro: a cachaça na gastronomia. E pra não destoar do resto, aqui também a autora esbanjou criatividade e competência: pra dar conta do capítulo final, ela contou com a ajuda de alguns dos principais chefes de cozinha do país, que foram desafiados, digamos assim, a quebrar o paradigma de que cachaça combina apenas com comida mineira. Saíram deste desafio alguns pratos inusitados, pra dizer o mínimo. E a versatilidade da aguardente brasileira fica mais do que comprovada: “Afinal, quantas pessoas poderiam imaginar a cachaça em um prato de comida japonesa?”, conclui Alessandra.

Por Sidnei Maschio, cachacas.com