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O pai da idéia é o engenheiro Jaime Pereira Filho, que fez pós-graduação em marketing mas resolveu seguir no negócio da família, que tem uma distribuidora de bebidas na capital paulista há mais ou menos 50 anos. Apesar de estar à frente da empresa por mais de 20 anos, a sua relação com a cachaça é relativamente recente. “Eu já tinha muita informação sobre caipirinha, mas achava que o must do drink era a vodka. Confesso que não conhecia praticamente nada de cachaça. Pra mim, o mundo da aguardente de cana se limitava às marcas comerciais, essas mais vendidas na praça, que a gente usava pra fazer caipirinha mas não se atrevia a tomar pura nem a poder de decreto. Há uns 12 anos, mais ou menos, fiz uma viagem pra Minas Gerais com o objetivo específico de pesquisar a cachaça brasileira. E o que eu vi e bebi foi uma enorme e muito agradável surpresa”, conta ele. Foi paixão à primeira vista, ou ao primeiro gole: “Nova ou envelhecida, pura ou no preparo de drinks, a bebida me fascinou”, admite. O primeiro resultado da viagem foi a inclusão de várias marcas mineiras na lista de produtos comercializados pela distribuidora. Depois vieram outras, de todas as boas procedências do país. Mas não foi suficiente. Jaime conta que surgiu daí a idéia de fazer o bar: “Imaginei uma daquelas vendinhas antigas do interior, que era praticamente uma extensão da casa do sujeito, com um clima de amizade, bate-papo, amigos se encontrando pra conversar, coisas desse tipo”. Com essa idéia na cabeça, Jaime foi à luta. O primeiro passo foi procurar gente disposta a encarar a empreitada. Não foi assim tão difícil, e logo o projeto tinha mais três parceiros. Até hoje, o Paralelo continua tendo quatro sócios, o Jaime e mais três. Só que, contando os que entraram e os que saíram, ao todo passaram pela sociedade mais de 20 nomes. E o Jaime continuou firme, confiando plenamente no sucesso da sua idéia inicial, que aliás evoluiu bastante até chegar ao que é hoje. Agora, a proposta do Paralelo, com sua decoração fiel ao estilo das velhas ferrovias inglesas, é levar seus freqüentadores quase a uma viagem no tempo, juntando aí aquele conceito inicial da vendinha do interior de antigamente. “O meu objetivo é que as pessoas saiam daqui dizendo ‘este é o meu bar’. Eu freqüentei lugares ótimos, onde a comida era maravilhosa, a bebida ótima, o ambiente fantástico. Mas ficou faltando ainda uma coisinha assim, aquele detalhe decisivo, justamente aquilo que determinaria essa escolha, essa idéia de que ‘este é o meu bar’. E é isso que eu quero oferecer às pessoas no Paralelo”, completa. O objetivo foi plenamente atingido: hoje, o Paralelo tem um grupo de clientes cativos, gente que dá pelo menos uma passadinha rápida pelo bar, aquela “pra bater o ponto”. O nome da casa surgiu de uma série de coincidências, começando pelo chopp, o melhor parceiro da cachaça. O destaque entre as várias marcas oferecidas no bar é o Eisenbahn, o tradicional chopp de trigo fabricado em Santa Catarina. Em alemão, eisenbahn significa estrada de ferro. A segunda coincidência está relacionada ao próprio endereço da casa, que fica no número 1.227 da rua Joaquim Távora, aliás bem em frente à ESPM, a mais importante faculdade de propaganda e marketing do país. Pesquisando a história das ferrovias européias do século dezenove, Jaime descobriu que 1227 também era o número de identificação da liga de aço mais usada na construção das linhas férreas do velho continente. Juntando todos esses conceitos com a tradição da cachaça, o casamento ficou perfeito. Tanto que o que era pra ser mais uma cachaçaria na cidade evoluiu para a formação de um clube da cachaça, atualmente com mais de quatrocentos sócios. No ato da admissão, o participante adquire a garrafa da sua preferência, que fica guardada à sua disposição para consumo nas próximas visitas ao bar. Além disso, o clube também se reúne regularmente para várias atividades, como cursos e palestras sobre temas relacionados ao mundo da aguardente de cana brasileira. Além do clube, evidentemente a atração principal da casa é a carta de cachaças, composta por mais de cem das melhores marcas disponíveis no mercado nacional. A oferta contempla todos os gostos, passando por diferentes madeiras e procedências, mas respeitando sempre o critério da qualidade. Só se bebe coisa boa no Paralelo, e disso os proprietários não abrem mão. Os acompanhamentos estão à altura da excelência da bebida. Você pode escolher entre os pasteizinhos de vários tipos e sabores, o escondidinho com carne seca e macaxeira e a especialíssima lingüiça flambada na cachaça. Mas o Paralelo 12:27 não é só comida e bebida. Lá a freguesia encontra também outro acompanhamento fundamental para a aguardente de cana brasileira: histórias. E nesse ponto, o pessoal da casa é especialista. Tem, por exemplo, aquela da cachaça afrodisíaca, batizada de “Segredo de Araxá”. O próprio Jaime conta que, numa viagem à tradicional estância de águas de Minas Gerais, os sócios resolveram pesquisar as propriedades quase milagrosas das lamas medicinais da região, somando esse poder, digamos assim, às virtudes da cachaça. Segundo ele, o primeiro passo foi conseguir uma bebida de qualidade, fabricada a partir de uma cana cultivada na região, para aproveitar as qualidades muito particulares do solo local, numa lavoura irrigada em todo o seu ciclo com as águas sulforosas que fizeram a fama do município. Obtida a matéria-prima, o passo seguinte foi a destilação, dentro dos critérios determinados pelos melhores mestres alambiqueiros das Minas Gerais. A bebida saída do suor do alambique foi envelhecida por três anos em tonéis de carvalho. O “segredo”, incorporado depois ao nome da cachaça, é que o tonel passa o último ano do envelhecimento enterrado nas lamas medicinais de Araxá. O resultado está à disposição dos freqüentadores do bar. Jaime ressalta que o processo é empírico, mas atesta o bom funcionamento do “tratamento”: “Vendemos essa cachaça a R$ 10,00 por dose de 50 ml, com a garantia de que, se ela não funcionar e o bebedor não tiver uma noite de amor inesquecível, o dinheiro será devolvido no dia seguinte. Evidentemente, pra obter a devolução, é necessário que o cliente frustrado apresente uma reclamação formal, descrevendo as circunstâncias que o levaram a concluir pela ineficiência do produto”. O fato é que ninguém se apresentou pra reaver o dinheiro investido. “Donde se conclui que a cachaça é realmente afrodisíaca”, arremata o Jaime. Outra das histórias do Paralelo é uma inversão radical no processo de envelhecimento de cachaças nobres. O bar reservou, no início de 2.005, 180 litros da mais fina aguardente, armazenados em quinze tonéis de carvalho, que só deverão ser abertos daqui a doze anos. Normalmente, o envelhecimento seria feito em ambiente de silêncio praticamente total, em temperatura reduzida e umidade relativamente alta. Mas aqui o processo será feito com os tonéis expostos ao barulho, à gritaria, à música, ao calor e aos encontros e desencontros típicos do ambiente. A aposta é que o resultado será bastante diferente daquele verificado no sistema tradicional. Os tonéis que fazem parte do experimento foram incorporados à decoração do ambiente. Mais do que isso, estão disponíveis para venda, e muitos deles já foram adquiridos pelos freqüentadores, ao módico preço de R$ 350,00 de entrada, mais a mesma quantia (corrigida pela variação do dólar norte-americano) a ser paga na entrega do produto, no ano de 2.017. A casa garante a confiabilidade do investimento. Mas apesar disso pairam algumas suspeitas, infundadas, é claro, sobre a lisura do negócio. O próprio barman do Paralelo, conhecido pelo sugestivo apelido de “Psicose”, acha que nos tonéis expostos cabem no máximo cinco litros, e não 12, como dizem os seus patrões. Mais do que isso, ele estranha o fato de que não se verifica ali a presença das drosófilas, que são aquelas mosquinhas que sempre aparecem ao redor de tonéis usados no envelhecimento de cachaça. Há, ainda, outras questões levantadas, como o verniz sobreposto nos tonéis, o que contraria os manuais básicos para o envelhecimento da cachaça. Mas o Jaime garante que não há nenhum fundamento nessas suspeitas, e assegura que os compradores dos tonéis terão, sim, uma grande surpresa quando eles forem abertos. O que vai acontecer só em 2.017, vale lembrar. Quem pagar e acreditar, verá, assegura ele. Enfim, passando o traço e fechando a conta, o que vale mesmo no Paralelo 12:27 é a busca deste espírito de brincadeira e descontração, tão característico do caráter brasileiro, que tem absolutamente tudo a ver com o que há de melhor na cultura e na qualidade da mais genuína cachaça brasileira.
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Por Sidnei Maschio |
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