A redescoberta da cachaça como um dos mais autênticos valores da nação brasileira é um extraordinário processo de resgate cultural, digno de ser saudado com entusiasmo por todo mundo que tenha um mínimo de compromisso com a história, a economia e a cultura do país. Mas o brilho dessa idéia acaba de dar um fruto de gosto amargo e sem nenhuma graça. Na madrugada do último dia oito de novembro, ladrões invadiram o Museu da Cachaça de Caeté, em Minas Gerais, e roubaram uma das suas maiores preciosidades, a garrafa da caninha Pelé.

A peça tem valor histórico inestimável. Fabricada sem autorização do atleta do século, conta a lenda que ela é fruto da esperteza de um empresário que pretendia se aproveitar da fama nascente do então jovem atleta, que acabava de conquistar o primeiro título mundial de futebol com a seleção brasileira, no distante ano de 1958. Irritadíssimo com a malandragem, e sem ter à época uma legislação de proteção e uso de imagem na qual pudesse se apoiar pra defender seus direitos, Pelé teria comprado e destruído todas as garrafas à venda na praça. Apenas umas poucas teriam escapado da justa ira destrutiva do futuro rei do futebol. Hoje, esses raríssimos exemplares estão incorporados a algumas (igualmente poucas) coleções espalhadas pelo Brasil.

O episódio engrossa uma imensa lista de roubos que, ao longo dos últimos anos, vêm dilapidando o acervo cultural de Minas Gerais, que é um dos mais importantes do Brasil. De acordo com as autoridades policiais mineiras, existem quadrilhas em plena atividade que se especializaram na lida de surrupiar imagens sacras, documentos de época e obras de arte antigas de uma forma geral. É gente que sabe muito bem o que está roubando e, o que é pior, na maioria das vezes sabe também pra quem está roubando. Mas ainda assim, a ação dos ladrões de Caeté impressiona pelo seu caráter inédito: até onde o cachaças.com pôde apurar, não se tinha notícia em nenhum lugar do país de alguém que tenha roubado uma cachaça rara.

A lamentável ocorrência de Caeté lembra inevitavelmente uma outra, que entrou para a história da crônica policial brasileira, e que por uma coincidência extraordinária também envolve indiretamente a figura de Pelé, o eterno rei do futebol. Em 1970, depois de um desempenho fantástico nos gramados mexicanos, a seleção brasileira conquistou o tri-campeonato mundial de futebol e, por conseqüência, teve a posse definitiva da taça Jules Rimet. Pra quem não se lembra, o “caneco” era um vistoso troféu feito em ouro maciço, que passou por vários países desde 1930, ano em que foi disputada a primeira Copa do Mundo. O torneio do México foi a quarta e última copa disputada por Pelé, que obviamente teve uma participação decisiva na memorável campanha. Recebido pelo povo brasileiro com uma festa histórica, o troféu ficou pouco tempo nas prateleiras da então CBD, Confederação Brasileira de Desportos, hoje CBF, Confederação Brasileira de Futebol.

Foi roubado por uma quadrilha de bandidos de segunda categoria, que cometeram o supremo sacrilégio de derreter a maior glória do esporte nacional para trocar o metal precioso da taça pelo vil metal do dinheiro no mercado negro do submundo do crime. Depois da intolerável negligência na guarda de um dos maiores símbolos da grandeza do esporte brasileiro, a entidade dirigente do futebol nacional até mandou fazer uma réplica pra pôr no lugar que havia ficado vago. Mas a gente sabe que não é a mesma coisa, e o remendo jamais conseguiu apagar o trauma e a tristeza que ficaram na alma e no coração do Brasil pela perda de taça verdadeira, conquistada com o suor, as lágrimas e o talento dos nossos craques, comandados pela genialidade de Pelé.

Olho vivo na pista dos bandidos

Segundo Paulo Diogo Monteiro de Barros, um dos responsáveis pelo acervo do museu de Caeté, a descoberta do mal-feito deixou a tradicional cidade mineira em estado de choque. Em comunicado distribuído pela Internet, ele e os demais dirigentes da instituição destacam a importância da garrafa “não pelo que ela representa em termos de preço que ela possa alcançar no mercado, mas pelo seu valor histórico e pela sua representatividade para o patrimônio do museu”. Além das providências cabíveis no caso, como a devida denúncia às autoridades policiais no âmbito municipal, estadual e nacional, o museu de Caeté também está fazendo um apelo aos colecionadores e apreciadores da boa cachaça no Brasil inteiro para que não comprem nenhum exemplar da caninha Pelé sem ter certeza absoluta de que sua procedência seja honesta.

A entidade aposta que, pra reverter o crime em lucro, pra transformar em dinheiro o produto do roubo, os ladrões certamente irão procurar primeiro os colecionadores de cachaça. E é nessa hora que a Justiça terá a melhor chance de botar as mãos nos larápios e recuperar a preciosa garrafa. Pra ajudar na identificação, Barros informa que a peça tem um lacre de cor verde no gargalo e a tradicional tampinha dourada que é uma espécie de selo do museu da cachaça de Caeté.
Em caso de suspeita, a denúncia deve ser encaminhada para a delegacia de polícia mais próxima, ou para o endereço eletrônico mcachaca@terra.com.br, ou ainda para os telefone (31) 3651-2024, (31) 3651-8757 e (31) 9999-6960. 

Por Sidnei Maschio