Pura paixão. É desse jeito que o chef Sérgio Arno, um dos mais festejados nomes da culinária nacional, define o motivo que o levou ao lançamento de sua própria marca de cachaça. Dono de restaurantes e casas badaladas, como o La Vecchia Cuccina, o La Pasta Gialla, o Alimentari e o General Prime Burguer, além da novíssima cachaçaria Universidade da Cachaça, ele resolveu escancarar para o high society paulistano o seu gosto e o seu apreço pela bebida, vítima de tantos preconceitos entre a elite brasileira.

A cachaça Sérgio Arno chega aos melhores copos da praça numa elegante embalagem de 500 ml, desenvolvida por Bob Maccioni, da Agência I+9, responsável pelo marketing do empresário. O rótulo, impresso em transparência sobre a garrafa, é despojado, moderno e, ao mesmo tempo, de muito bom gosto. São duas versões: a branca, identificada pelas letras em verde, e a amarela, com letras vermelhas. Tanto uma quanto a outra são envelhecidas por dez anos, a primeira em tonéis de amendoim e a segunda, em carvalho. O preço é igual: R$ 29,00.

O precioso líquido foi garimpado nos rincões de Minas Gerais com critério, cuidado e ciência. Na empreitada, Sérgio teve a ajuda mais do que competente de Antonio Carlos Ferreira, proprietário da Destilaria Musa, um profundo conhecedor de cachaça e dos artistas dos alambiques mineiros. Depois de gastar a sola do sapato, a dupla chegou ao município de Piranguinho, onde deu a sorte de encontrar um lote de dez mil litros de uma aguardente de alta estirpe, destilada por um estabelecimento que havia desistido do mercado há alguns anos.

A despeito da alta qualidade da cachaça, Sérgio não quis arriscar: mandou tudo para o alambique de Antonio Carlos, para uma segunda destilação. No processo, perdeu-se pelo menos dez por cento da quantidade original. Mas valeu a pena: o resultado foi uma bebida leve, com graduação alcoólica de quarenta graus, de aroma agradável, com sabor suave e persistente. “E com uma certeza”, acrescenta Sérgio: “no dia seguinte você não vai ter dor de cabeça”. É com este produto que ele pretende oferecer uma nova opção de bebida não só ao fiel bebedor, mas também a um público novo, de classe alta, de bom nível cultural, que quer beber uma da boa mas ainda enfrenta um certo preconceito em relação à cachaça no seu meio social.

Pra atingir seu objetivo, Sérgio estabeleceu uma estratégia totalmente diferente daquela adotada pelas novas marcas de cachaças chiques que estão chegando ao mercado: ele não vai investir nem um centavo em campanhas publicitárias. “Acho que isso não é necessário”, diz ele, “por vários motivos: primeiro, porque conseguimos um produto de altíssima qualidade; depois, porque o objetivo não é ganhar dinheiro, não é competir no mercado, mas apenas ter a satisfação de oferecer aos amigos o que de melhor eu pude fazer. E isso não tem preço, não há como se remunerar essa satisfação”, garante o empresário.

Pelo andar da carruagem, a estratégia está mais do que correta: em apenas algumas semanas, mais ou menos a metade deste primeiro lote engarrafado já foi vendida, num prazo muito menor do que esperava o criador da nova cachaça. E pra quem comprou, bebeu e gostou, a preocupação é saber logo o que vai acontecer quando a última garrafa do lote comprado em Piranguinho for arrematada por algum felizardo bebedor. Sérgio já tem planos definidos: antes de acabar o estoque, recomeça a garimpagem, do mesmo jeito que foi feito até se encontrar a bebida que está no mercado agora.

Assim como o primeiro lote, batizado de Cássia, nome da esposa de Sérgio Arno, os próximos também vão homenagear as mulheres da vida do empresário: o segundo será chamado de Maria Vitória, a filha mais velha; depois será a vez de Carolina, a filha mais nova, de dona Ana Maria, a mãe, e assim por diante. E nome não vai faltar: “A família é grande o suficiente”, tranqüiliza Sérgio.


Cachaça, cultura e brasilidade.
Não é de hoje que Sérgio se bandeou de armas e bagagens para o lado da água-que-passarinho-não-bebe. Ele conta que, há uns sete ou oito anos, resolveu montar uma adega particular de vinhos. Só que, quando foi às compras, levou um susto: pra ter uma quantidade razoável de marcas e safras significativas, seria necessário gastar uma verdadeira fortuna. O projeto da adega de vinhos acabou descartado. Mas a idéia de ter uma coleção de bebidas ficou viva na cabeça do empresário. Algum tempo depois, numa dessas inspirações que a gente não sabe bem de onde vêm, surgiu a pergunta: por que não a cachaça em vez do vinho? “Os rótulos das cachaças que eu via no interior sempre me chamaram a atenção. De repente, achei que poderia haver ali alguma coisa interessante, uma riqueza cultural escondida no meio daquela imensa variedade de garrafas, de desenhos e de nomes cheios de significado, e resolvi pesquisar o assunto”, conta ele.

E pronto, começou aí a descoberta do fascinante mundo da mais brasileira das bebidas. O cozinheiro chique e empresário bem-sucedido fez a mala e partiu para uma excursão pelos mais preciosos endereços da cachaça mineira. Só voltou pra São Paulo depois de comprar umas quatrocentas garrafas. Hoje, a coleção tem cerca de três mil garrafas, a maior parte delas expostas na cachaçaria, completando com propriedade a decoração da casa. Extremamente aplicado em tudo o que faz, o empresário mergulhou de cabeça na busca de informações, visitando alambiques lendo tudo o que encontrava, conversando com especialistas e técnicos dos principais centros de pesquisa da nossa aguardente de cana.

Não é exagero dizer que ele é atualmente uma das pessoas mais bem informadas sobre a marvada em todo o país. Mas Sérgio recusa qualquer ligação da sua descoberta da cachaça com um modismo passageiro ou mesmo com uma iniciativa oportunista com objetivos puramente comerciais. E pra justificar o argumento, lembra as raízes rurais da família, que tinha fazenda em Campinas, SP.

Com relação ao mercado, Sérgio acredita que há um imenso espaço a ser ocupado pela sua marca e por outras de igual quilate nos próximos anos. Mas prevê que não está muito longe o momento em que vai haver uma estabilização, e aí, na sua opinião, vai ficar quem realmente é bom, quem tem um produto de alta qualidade pra oferecer a um público consumidor que certamente estará bem mais afiado na arte de apreciar uma boa cachaça.

Por Sidnei Maschio