A Cachaçaria Pompéia, na capital paulista, foi o palco escolhido pela Fazenda São José do Mato Seco , de Mococa, estado de São Paulo, para mostrar a um grupo de convidados especiais a sua Cachaça da Tulha, que deve ser lançada em breve no mercado nacional. Apresentada em garrafas de 750 ml, com rótulo criado por Leandro Granito e Lew Lara, ela vem para disputar a preferência de um público de alto nível social e econômico, das classes A e A-B. São duas versões: a branca, envelhecida por um ano em tonéis de jequitibá, e a amarela, armazenada em carvalho por pelo menos três anos.

Segundo Yaya Quintella, gerente de comunicação do projeto da nova marca, o objetivo da empresa ao lançar a Cachaça da Tulha é, antes de qualquer outra coisa, brindar os apreciadores de aguardente com uma bebida de alta qualidade, à altura das tradições, da cultura e da história da fazenda. “A cachaça sempre foi uma bebida adorada pelo povo brasileiro, faz parte da nossa história desde os primórdios da colonização. E a vontade de mostrar ao mundo este saboroso destilado genuinamente nacional nos levou a concretizar um sonho antigo, de produzir a verdadeira cachaça do Brasil, com alta qualidade, que na mesa mostra o que nosso país tem de melhor”, enfatiza ela.

Yaya acrescenta que “desde o início do projeto procuramos conhecer novas tecnologias sem esquecer a tradição da cachaça de alambique. É o caso da nossa fermentação, feita com leveduras selecionadas em laboratório, que nos permitem manter um rigoroso controle de todo o processo, de maneira a evitar contaminações e eventuais alterações na qualidade do produto final”. Para dar conta do recado, Yaya foi buscar a ajuda mais do que competente do engenheiro agrônomo Gustavo Hildebrand, graduado na Esalq, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba. A centenária instituição, que faz parte da USP, a Universidade de São Paulo, é um dos principais centros de excelência no ensino das ciências agronômicas do país, com amplo reconhecimento internacional. A Esalq mantém um centro de pesquisas de alto nível na área sucro-alcooleira, incluindo especificamente a produção de cachaça, onde Gustavo fez sua especialização profissional.

A matéria-prima da Cachaça da Tulha é produzida na própria fazenda, numa área de dez hectares. A cana é cortada crua, sem queima, para que não haja nenhuma interferência no gosto da bebida nem agressão à microbiologia do solo de cultivo, o que é uma condição fundamental para a sua conservação. Todo o trabalho é manual, desde o corte e o despalhamento na roça até o transporte, com o cuidado de não levar palha e terra para a destilaria, o que influenciaria negativamente a fermentação. O caldo é extraído em uma moenda simples. Depois da moagem, o bagaço é aproveitado como combustível para o aquecimento da caldeira, evitando-se o consumo de madeira, e o excedente é usado como forragem para o rebanho de gado leiteiro da propriedade.

A estrutura de produção da Cachaça da Tulha inclui dois alambiques e dois pré-aquecedores que funcionam a vapor, além, é claro, do resfriador, tudo feito em cobre, como manda a tradição do destilado brasileiro. As dornas de fermentação são de inox, com sistema de resfriamento externo. “Como não utilizamos antibióticos na fermentação, qualquer dorna que apresente contaminação ou anormalidades durante o processo é descartada, para evitar alterações na cachaça”, acentua Yaya. A vinhaça, que é o subproduto da destilação, é utilizada como adubo para o canavial, pois contém potássio e outros componentes de alto valor nutritivo para o solo.

Além da questão cultural, Yaya acentua que a empresa está apostando no grande potencial de crescimento do mercado nacional e internacional da cachaça, que segundo ela ainda tem um imenso espaço para crescer. O caminho das pedras para o sucesso, enfatiza ela, é investir justamente na qualidade do produto, para conquistar um consumidor exigente, que sabe perfeitamente a diferença entre o bom e o descartável. Para manter esse nível de qualidade, a fazenda pretende limitar a produção a não mais do que 80 mil litros por ano, incluindo as duas versões. O preço final ao consumidor ainda não está fechado, mas deve ficar em aproximadamente R$ 35,00 para a amarela e R$ 25,00 para a branca.

Na beira na tulha, mais de um século de tradição.

A Fazenda São José do Mato Seco foi aberta no final do século XIX, no rastro do avanço da cultura cafeeira pelo norte do estado de São Paulo. Hoje, seu principal negócio é a produção de leite, a partir de um rebanho de gado da raça Gir, de alta seleção genética, com animais premiados em torneios leiteiros e exposições da raça em várias regiões do país. Apesar da passagem do tempo, suas construções originais de pau-a-pique estão cuidadosamente conservadas. Além disso, as instalações do núcleo original passaram por um criterioso processo de restauração, e algumas construções foram adaptadas para acomodarem a estrutura necessária para a produção de cachaça, dando ao ambiente um requintado caráter de resgate da mais pura tradição da cachaça brasileira. A bela tulha da fazenda, antigamente usada para secar e armazenar café, foi restaurada e adaptada para alojar os tonéis em que a cachaça é envelhecida. Daí a origem do nome “Cachaça da Tulha”.

Por Sidnei Maschio