RECONHECIMENTO DA CACHAÇA NOS EUA

Cachacas
A medida deve elevar o potencial de comercialização da bebida nos EUA, dos atuais 700 mil litros para 30 milhões de litros por ano, um volume quase 43 vezes maior, em um período de cinco anos.

Brasília — Junto com o samba, o futebol, o carnaval e a feijoada, a cachaça figura como uma das mais emblemáticas marcas do Brasil exterior. Mas ela é a única desta lista que pode ser considerada uma exclusividade do país nos Estados Unidos, desde que um acordo assinado durante viagem da presidente Dilma Rousseff aos EUA, reconheceu a cachaça como bebida tipicamente brasileira.

Segundo César Rosa, presidente do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), a medida deve elevar o potencial de comercialização da bebida nos EUA, dos atuais 700 mil litros para 30 milhões de litros por ano, um volume quase 43 vezes maior, em um período de cinco anos.

Rosa, que também é presidente da Velho Barreiro, estima ainda que que com a reclassificação, os impostos cobrados sobre a cachaça nos EUA sejam reduzidos em 40%. Segundo ele, essa redução nos custos será revertida para ações de estímulo para fazer ao consumo da cachaça nos EUA.

Pela estimativa do Ibrac, a cachaça pode conseguir uma fatia de mercado equivalente a 5% a 10% do mercado de rum nos EUA, o que representaria uma venda de 2 a 3 milhões de caixas da nossa caninha por ano. Sem concorrer com o Rum, mas criando novo mercado para a cachaça.

A má notícia para os americanos, é que a Havana/Anisio Santiago, uma das mais famosas cachaças brasileiras, continuará apenas no mercado interna. Hoje, são produzidos cerca de 15 mil litros ao ano, e o preço de cada garrafa varia entre R$ 500 e R$ 700 aqui no Brasil. Segundo Osvaldo Santiago, sócio-presidente da Havana, a empresa não quer aumentar a produção para atender o mercado externo, para não colocar em risco a qualidade da bebida, produzida artesanalmente há mais de 70 anos.

- Seria correr um risco muito grande. Se aumentar a produção vai cair a qualidade. Essa é última coisa que pode ocorrer com a gente – disse.

 Outro som, outra ginga, que vão mexer o mercado americano

Não é apenas o potencial comercial que muda com a assinatura do acordo. Para Milton Lima, especialista em cachaça e criador do site www.cachacas.com, a medida fortalece a identidade brasileira no exterior, em momento em que o Brasil ganha mais importância no cenário internacional, sediando a Copa do Mundo e a Olimpíada.

- Sem dúvida, o psicológico é um ingrediente a mais a ser destilado. É uma vitória, é um produto reconhecido, o rótulo irá mudar agora não é mais o “Brazilian Rum” e sim a Cachaça do Brasil. Tem outra cor, tem outro som, tem ginga, certamente a publicidade irá fermentar esse mercado. O consumidor irá degustar com outros aromas, com outra percepção – disse Lima.

Para o presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Apacs), Nivaldo Gonçalves, o reconhecimento da cachaça nos Estados Unidos deve, além de alavancar as vendas, valorizar o produto no exterior.

- Entendemos que isso abre mais negócios pata o setor. A Cachaça vai ter uma valorização grande. Irá reduzir preconceitos, abrir espirito das pessoas para ver a cachaça como destilado de qualidade.

Com o benefício, novos desafios. No processo de desbravamento de novos mercados, com a Cachaça brasileira em nova roupagem, os produtores esperam contar com a ajuda de entidades de fomento do governo, como o Sebrae e as Apex.

Segundo o Ibrac, em 2011, a capacidade instalada de produção de cachaça no país era de aproximadamente 1,2 bilhão de litros ao ano, fabricados por mais de 40 mil produtores, que geram mais de 600 mil empregos diretos e indiretos. Entre os fabricantes, 99% são microempresas. Os exportadores ainda são minoria. Menos de 1% da cachaça brasileira é exportada, mas a lista de compradores tem mais de 60 países. Segundo o Ibrac, a receita com exportação do destilado somou US$ 17,28 milhões no ano passado.

Feitos os cumprimentos de praxe na medida do entendimento possível, o administrador nos guiou por um pequeno labirinto, até chegarmos ao porão da casa grande. A pesada porta colonial rangeu ao ser aberta, revelando um ambiente dominado por uma densa bruma. Nas paredes e nos cantos havia muitas ferramentas agrícolas, certamente centenárias, que eu nunca havia visto antes apesar de vários anos de militância no jornalismo agropecuário.

Próximo passo: cachaças com denominação de origem

O reconhecimento da cachaça como produto exclusivo do Brasil era algo pelo qual o governo brasileiro e produtores trabalhavam há 40 anos. Segundo o presidente do Ibrac, o Sebrae apoiou o setor no processo de obtenção do acordo. Rosa afirma que o setor contratou um lobista para, nos Estados Unidos, intermediar o trâmite político que levou a assinatura do acordo nesta semana.

- O setor empresarial é que conseguiu esse assinatura. Eu diria que 60% desse negócio (assinatura do acordo) partiu de provocação do setor privado.

Além de aumentar o volume exportado, os produtores acreditam que o acordo ajude a apressar a obtenção do selo de Denominação de Origem (D.O.), o que diferenciaria mais ainda o produto no exterior. O processo está na OMC há 15 anos, mas pode ser acelerado pelo fato de os Estados Unidos serem considerado um país formador de opinião.

- Esperamos apressar com o acordo e conseguir em dois ou três anos. Estamos em negociação avançada – disse o presidente do Ibrac.

Segundo o presidente da Apacs, os produtores de Salinas, centro de um polo produtor de cachaças especiais em Minas Gerais, estão em vias de obterem o selo de Indicação Geográfica, o primeiro passo para obtenção da Denominação de Origem o que irá diferenciar a cachaça artesanal da região.

- Vamos conseguir para Salinas o mesmo que conseguiram os produtores de Champagne, na França. Vamos conseguir o primeiro passo, que é a indicação geográfica. Com o selo de Denominação de Origem você derruba algumas barreiras de exportação. São produtos diferenciados. Isso traz um posicionamento mais adequado em termos de preço – avalia Gonçalves.

Osvaldo Santiago, da Havana, acredita que a D.O. poderá melhorar as vendas. – Mas o problema é que melhora e não tem como atender a todo mundo – avaliou o produtor da quase centenária e artesanal cachaça.

Por: Agência O Globo – portal@d24am.com

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